segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Realismo/Naturalismo


O Realismo foi o estilo de época que predominou, na literatura, durante a segunda metade do século XIX, um período rico em acontecimentos.
A Revolução Industrial já se encontrava em seu segundo momento, transformando o sistema capitalista e fazendo surgir uma nova burguesia e uma nova elite, que passaram a ocupar papel de destaque no cenário histórico desse período. Além disso, com a abolição da escravatura, duras condições de trabalho nas fábricas e salários miseráveis eram impingidos ao proletariado, o que gerou grandes movimentos sociais e políticos, tais como o Socialismo, o Comunismo e o Anarquismo.
As descobertas científicas e as novas doutrinas criavam inusitadas referências para toda a sociedade. O mundo conhecia a luz elétrica, o automóvel... uma outra realidade. Desenvolveram-se várias correntes de pensamento no campo da Filosofia, da Ciência, da Economia e da Psicologia. Dentre elas destacamos o Positivismo, o Determinismo, o Evolucionismo, o Marxismo e a Psicanálise, desenvolvida por Sigmund Freud.
Positivismo
"O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por meta." Augusto Comte

O Positivismo, corrente de pensamento fundada por Augusto Comte (1789-1857), só admite as verdades positivas, ou seja, as científicas, aquelas que provêm do experimentalismo, da observação e constatação. Para Comte, só cinco ciências eram relevantes: a Astronomia, a Física, a Química, a Fisiologia e a Sociologia, em ordem de importância. Esta última, pela sua complexidade, permitiria reformas sociais.
Comte afirmava que a finalidade do saber científico é a previsão: "saber para poder". No âmbito social e econômico, o filósofo propõe uma organização racional, que se direcione para os interesses coletivos, neutralizando assim os motivos de guerra e discórdia entre as nações. Comte acreditava que se pode alcançar qualquer objetivo, desde que,se saiba também imprimir às situações as causas necessárias à obtenção dos objetivos desejados.
Determinismo
Essa corrente foi desenvolvida por Hipólito Adolfo Taine (1828-1893), que aplicou o método experimental das Ciências Naturais às diversas produções do espírito humano. Taine afirmava que o comportamento humano era condicionado pelas influências da raça, do contexto histórico e do meio ambiente.
Evolucionismo
A teoria da evolução das espécies foi elaborada pelo naturalista inglês Charies Darwin (1809-1862), que retomou a teoria da evolução das espécies de Lamarck (1 744-1829), apoiando-se ainda em experimentos de seleção artificial da cultura de plantas e da criação de animais. Darwin elaborou a teoria da seleção natural, defendendo que a concorrência entre as espécies eliminaria os organismos mais fracos, permitindo à espécie inteira evoluir, graças às heranças genéticas favoráveis dos indivíduos mais fortes e mais aptos. A teoria da evolução abrange também a espécie humana e é apoiada pela Paleontologia, ciência que estuda os fósseis e demonstra a existência de espécies intermediárias entre as fósseis e as vivas. Darwin demonstrou cientificamente que os seres humanos e os macacos têm um antepassado em comum - questionando assim a existência de Deus, fato que criou um escândalo na sociedade da época.
Marxismo
Em 1848, os economistas e filósofos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) publicaram o Primeiro Manifesto Comunista, destinado sobretudo à classe operária, pretendendo despertar a consciência de classes ― pregava-se uma revolução internacional que derrubasse a burguesia, o sistema capitalista, e implantas se o comunismo. A pedra fundamental do marxismo está na idéia de socialização dos meios de produção. Em O Capital, obra de Marx, estão os principais conceitos do marxismo.
Psicanálise
O austríaco Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista, criador da Psicanálise, fez experimentos com a hipnose, utilizou outros recursos como análise de sonhos e a livre-associação de idéias para revelar os problemas que dão origem às chamadas neuroses. Segundo Freud, as neuroses seriam a intervenção de um fato negativo passado que continua interferindo de forma nefasta no presente, sendo grande parte delas causadas por traumas de infância: frustrações ou experiências negativas não-superadas. Ao afirmar a influência do inconsciente sobre as ações humanas e a ligação dos impulsos sexuais com as neuroses, Freud encontrou resistências nos meios científicos da época.
A ARTE REALISTA
Apesar de as tendências românticas sobreviverem nas artes plásticas até o século XX, ocorreram várias manifestações em que se observam a preocupação em retratar tipos e situações cotidianas, próximas da realidade social do período.
ARTES PLÁSTICAS
A pintura realista afasta-se dos temas históricos, religiosos e literários e tem como preocupação essencial retratar o mundo natural que rodeia o artista. Gustave Coubert, um dos principais representantes, sintetizou essa tendência ao afirmar, quando lhe pediram que incluísse anjos numa pintura para uma igreja: "Eu nunca vi anjos. Mostrem-me um anjo e eu pintá-lo-ei".
Assim, são temas da pintura realista a paisagem natural, como espaços cercados por árvores; o cotidiano de pessoas comuns, em especial, camponeses; cenas da vida rural, nas quais está implícita uma crítica à situação de pobreza em que se encontravam os trabalhadores.

LITERATURA

A desilusão com o fracasso dos ideais do liberalismo, as precárias condições do proletariado ― contrapostas aos privilégios da burguesia ― e a efervescência científica e filosófica impulsionaram a substituição do idealismo romântico por uma visão mais objetiva da realidade. Dessa forma, na literatura, o Realismo impõe-se como uma reação ao excesso de subjetividade romântica.
Em 1857, o francês Gustave Flaubert publicou o primeiro romance considerado realista, Madame Bovary; dez anos depois, Émile Zola editou Thérèse Raquin, dando início ao Naturalismo.

Madame Bovary é considerada uma das mais importantes críticas aos valores românticos e burgueses. A protagonista Emma Bovary, leitora assídua de romances românticos, tem por maior sonho viver como uma heroína desses romances. Entretanto, o choque entre o sonho e a realidade provoca a destruição física e moral da personagem.

Na mesma linha de Flaubert, destacam-se o francês Guy de Maupassant, autor de Bel-Amí; os russos Fiodor Dostoievski, autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, Leon Tolstoi, autor de Ana Karenina; e os dramaturgos Henrik lbsen e Anton Tchecov.
Já Émile Zola, representante máximo do Naturalismo, propunha um método científico para escrever: coletava dados, formulava hipóteses, criava personagens para comprovar a validade dessas hipóteses. Esses princípios estão expostos em O Romance Experimental. Outra obra de destaque de Zola é O Germinal.

O Realismo e o Naturalismo têm princípios comuns, tais como a objetividade, o universalismo, a correção e clareza de linguagem, o materialismo, a contenção emocional, o antropocentrismo, o descritivismo, a lentidão da narrativa, a impessoalidade do narrador. Entretanto, distinguem-se em vários pontos, uma vez que seus objetivos são diferentes. Cabe lembrar que o Naturalismo é uma ramificação cientificista do Realismo. Vamos destacar algumas dessas peculiaridades entre as duas estéticas.
DIFERENÇAS ENTRE REALISMO E NATURALISMO
Os escritores realistas propunham-se a fazer o "romance de revolução", pretendiam reformar a sociedade por meio de literatura crítica. Preferiam trabalhar com um pequeno elenco de personagens e analisá-los psicologicamente. Esperavam com isso que os leitores se identificassem com as personagens e as situações retratadas e, a partir de uma auto- análise, pudessem transformar-se.
Já os naturalistas estavam comprometidos com a ótica cientificista da época, objetivavam desenvolver o "romance de tese", no qual seria possível a demonstração das diversas teorias científicas. Os naturalistas retratam preferencialmente o coletivo, envolvendo as personagens em espaços miseráveis, corrompidos social e/ou moralmente, pois acreditavam que a concentração de muitas pessoas num espaço desfavorável fazia aflorar os desvios psicopatológicos - um alvo de interesse desses escritores. Os naturalistas vêem o mundo com olhos biológicos, reduzem o homem à condição animal, fazendo prevalecer o instinto sobre a razão. Os aspectos desagradáveis e repulsivos da condição humana são valorizados, como uma forma de reação ao idealismo romântico.


O Realismo no Brasil

O Realismo no Brasil tem como marco a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em 1881.
A passagem do Romantismo para o Realismo acompanha um período de muitas mudanças na história econômica, política e social brasileira. O Brasil da década de 80, quando se instala o novo movimento literário, não é mais o mesmo de 1850, época em que a segunda geração romântica dividia seus versos entre o amor e a morte, e as "moreninhas" circulavam pelos salões.
O Realismo vai encontrar terreno adubado para florescer, depois de o país ter passado, ao longo de quarenta anos, por fatos importantes que foram alterando aos poucos sua feição atrasada e tacanha. Como exemplo, a Guerra do Paraguai (1864-1870), o crescimento da campanha abolicionista, o enfraquecimento do governo de D. Pedro II, a intensificação das idéias republicanas, a força da economia agrária, que concentrava a renda nas mãos de fazendeiros de açúcar, primeiro, e de café, depois.
A década de 80 será muito agitada: as campanhas abolicionistas e republicanas andam juntas, em comícios, movimentos e passeatas, na maioria de estudantes e intelectuais. A escravidão e o Império caem quase ao mesmo tempo: em 1888 veio a Abolição; em 1889 Deodoro da Fonseca proclamou a República. Esses dois fatos criaram uma nova realidade, ao eliminar o trabalho servil e introduzir o princípio do voto na eleição dos governos, constituindo um índice de que se iniciava o processo de modernização da economia e política nacionais.
Paralelamente, dinamiza-se a vida social e cultural (principalmente no Rio de Janeiro), como sempre soprada por ventos europeus: liberalismo, socialismo, positivismo, cientificismo, etc. Idéias já consolidadas lá fora e importadas por nós, no mais das vezes sem a necessária adaptação. Numa sociedade agrária, escravocrata e preconceituosa, sem indústrias, sem classe operaria, elas surgiam deslocadas, fora de lugar.
A literatura realista e naturalista brasileira passa a refletir essas idéias, no interior da realidade específica do nosso país, através da pena de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Adolfo Caminha; Olavo Bilac brilha com a poesia parnasiana; Raul Pompéia ensaia sua prosa intimista.
Mudava a literatura porque mudava o país. Aumenta o número de estradas de ferro, incrementa-se o transporte urbano, surge a iluminação elétrica e o cinema. Nas cidades, aumentam a classe comercial, o funcionalismo, os militares e os trabalhadores livres, já em grande parte imigrantes. Nas ruas ainda estreitas e sujas proliferam os salões elegantes, as confeitarias e as lojas que copiavam a moda de Paris.


O Naturalismo


Já sabemos que Realismo e Naturalismo têm, entre si, semelhanças e diferenças. Se o primeiro procura retratar o homem interagindo no seu meio social, o segundo vai mais longe: pretende mostrar o homem como produto de um conjunto de forças "naturais", instintivas, que, em determinado meio, raça e momento, pode gerar comportamentos e situações específicas.
Nas obras de alguns escritores realistas podemos distinguir certas características que definem uma tendência chamada Naturalismo.
O Naturalismo enfatiza o aspecto materialista da existência humana. Para os escritores naturalistas, influenciados pelas teorias da ciências experimentais da época, o homem era um simples produto biológico cujo comportamento resultava da pressão do ambiente social e da hereditariedade psicofisiológica. Nesse sentido, dadas certas circunstâncias, o homem teria as mesma reações, instintivas e incontroláveis. Caberia a escritor, portanto, armar em sua obra uma certa situação experimental e agir como um cientista em seu laboratório, descrevendo as reações sem nenhuma interferência de ordem pessoal ou moral.
No romance experimental naturalista, o indivíduo é mero produto da hereditariedade. Ao lado desta, o ambiente em que vive, e sobre o qual também age, determina seu comportamento pessoal. Assim, predomina o elemento fisiológico, natural, instintivo: erotismo, agressividade e violência são os componentes básicos da personalidade humana, que, privada do seu arbítrio, vive à mercê de forças incontroláveis.
Desse modo, o Naturalismo atribui a um destino inescapável, de origem fisiológica, aquilo que, na verdade, é produto do sistema econômico-social: a retificação do homem, ou seja, a sua transformação em coisa (do latim res = coisa).
Para dar vida a toda essa teoria, os autores colocam-se como narradores oniscientes, impassíveis, podendo ver tudo por todos os ângulos. As descrições são precisas e minuciosas, frias e fidelíssimas aos aspectos exteriores. As personagens são vistas de fora para dentro, como casos a estudar: não há aprofundamento psicológico; o que interessa são as ações exteriores, e não os meandros da consciência à maneira de, por exemplo, Machado de Assis.


O Romance Naturalista

O naturalismo foi cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Olímpio, Inglês de Sousa e Manuel de Oliveira Paiva. O caso de Raul Pompéia é muito particular, pois em seu romance O Ateneu tanto apresenta características naturalistas como realistas, e mesmo impressionistas.
A narrativa naturalista é marcada pela vigorosa análise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando-se o coletivo. Interessa notar que a preocupação com o coletivo já está explicitada no próprio título dos principais romances: O Cortiço, Casa de pensão, O Ateneu. É tradicional a tese de que, em O Cortiço, o principal personagem não é João Romão, nem Bertoleza, nem Rita Baiana, mas sim o próprio cortiço.
No Brasil, a prosa naturalista foi muito influenciada por Eça de Queirós, basicamente com as obras O crime do Padre Amaro e O primo Basílio. Em 1881 surge o romance considerado o marco inicial do Naturalismo brasileiro: O mulato, de Aluísio de Azevedo.
Pertencem também ao Naturalismo brasileiro, entre outros, O missionário, de Inglês de Souza, e A carne, de Júlio Ribeiro, ambos publicados em 1888. Adolfo Caminha publicou A normalista (1893) e O bom crioulo (1896), considerados boas realizações naturalistas.


Características do Realismo-Naturalismo

Compromisso com a realidade
O Realismo-Naturalismo é contra o tradicionalismo romântico. Trata-se de uma arte engajada: ela tem compromisso com o seu momento presente e com a observação do mundo objetivo e exato.
Presença do cotidiano
Os escritores realistas-naturalistas consideram possível representar artisticamente os problemas concretos de seu tempo, sem preconceito ou convenção. E renovaram a arte ao focalizarem o cotidiano, desprezado pelas correntes estéticas anteriores. Daí que os personagens de romances realistas-naturalistas estejam muito próximos das pessoas comuns, com seus problemas do dia-a-dia, com suas vidas medianas, cujas atitudes devem ter sempre explicações lógicas ou científicas. A linguagem é outra preocupação importante: ela deve se aproximar do texto informativo, ser simples, utilizar-se de imagens denotativas, e as construções sintáticas devem obedecer à ordem direta.
Personagens tipificados
Os personagens de romances realistas-naturalistas são retirados da vida diária e são sempre representativos de uma categoria - seja a um empregado, seja um patrão; seja um proprietário, seja um subalterno; seja um senhor, seja um escravo, e daí por diante. Os personagens típicos permitem estabelecer relações críticas entre o texto e a realidade histórica em que ele se insere: isto é, embora os personagens sejam seres ficcionais, individuais, passam a representar comportamentos e a ter reações típicas de uma determinada realidade.
Preferência pelo presente
Geralmente os escritores realistas-naturalistas deram preferência ao momento presente: as narrativas estavam ambientadas num tempo contemporâneo ao do escritor. Com isso, a crítica social ficaria mais próxima e mais concreta. Nesse sentido, a literatura ganha um papel de denunciadora do que havia de mau na sociedade. Outro aspecto dessa preferência pelo momento presente é o detalhismo com que é enfocada a realidade, fato explicável pela proximidade.
Preferência pela narração
Ao contrário dos românticos, que privilegiaram a descrição, os realistas-naturalistas deram ênfase à narração do fato: o que acontece e por que acontece são as preocupações desses escritores.
Anticlericais, antimonárquicos, antiburgueses
Os realistas-naturalistas são marcadamente contra a Igreja, que apontam como defensora de ideologias ultrapassadas, como, por exemplo, a monarquia. Também criticam acirradamente a burguesia, que encarna o status romântico em geral.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Logocedlan

Esta é a logo do Cedlan. Reduzida e em alta definição.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

A SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 : O MARCO DO MODERNISMO

            A ideia de realizar uma semana de arte partiu do pintor Di Cavalcanti. Inicialmente, o objetivo era modesto: uma pequena exposição de arte moderna na livraria e editora O Livro, em São  Paulo. Nessa livraria, os modernistas costumavam reunir-se para palestras, declamações e mostras de trabalho.
Por intermédio do escritor Graça Aranha, Di Cavalcanti conhece Paulo Prado, um homem culto, rico, de formação européia e bom gosto artístico. Este se anima com a ideia e resolve ajudar. A adesão de pessoas de destaque da alta sociedade paulistana que resolveram prestigiar o evento aumenta ainda mais o interesse da imprensa em divulgá-lo.
            Escolhe-se, então, um novo local para a realização da semana: o majestoso Teatro Municipal de São Paulo, que tinha sido inaugurado em 1912 e era o reduto artístico da aristocracia da cidade.
            Depois de grande publicidade na imprensa, começaram a realizar-se os espetáculos, programados para os dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. No saguão  do teatro, é instalada ma exposição de artes plásticas que inclui trabalhos dos artistas Vítor Brecheret, Anita Malfati, Di Cavalcanti, Vicente Rego Monteiro, entre outros.

Capa do Catálogo da Semana, por Di Cavalcanti

As noites polêmicas


            No dia 13, Graça Aranha abre a Semana com a palestra “Emoção estética na obra de arte”, propondo a renovação das artes  e das letras. Vários textos modernistas são declamados em seguida. Depois, apresenta-se uma composição musical de Villa-Lobos e uma conferência de Ronald de Carvalho sobre a pintura e a escultura modernas no Brasil. O programa s encerra com a execução de algumas peças musicais.
            No dia 15, a programação provocou muita polêmica e agitação. Abre a noite o escritor Menotti del Picchia, com a palestra “Arte moderna”. Suas enfáticas reivindicações de liberdade e renovação provocaram apartes e vaias. Alguns jovens escritores também são apresentados e declamam versos modernos, a que se segue ruidosa manifestação de desagrado dos espectadores, com gritos, vaias e ofensas. O pianista Guiomar Novaes fecha a primeira parte da programação e sua música acalma um pouco o ambiente. No intervalo, perante um público espantado com as obras expostas no saguão, Mário de Andrade faz uma rápida palestra sobre arte moderna, na escadaria do teatro. Mas quase não é ouvido, pois as pessoas começaram a vaiá-lo e a caçoar das obras, o que gerou um grande tumulto. A segunda parte do programa, mais tranqüila, constou de execução de peças musicais.
            “No dia 15, o poema ‘Os sapos’, de Manuel Bandeira, que ridicularizava o Parnasianismo, foi declamado por Ronald de Carvalho sob os apupos, os assobios, a gritaria de ‘foi não foi’ da maioria do público. Agenor Barbosa obteve aplausos com o poema ‘Os pássaros de aço’, sobre o avião, mas Sérgio Milliet falou sob o acompanhamento de relinchos e miados.” (Mário da Silva Brito)
            A Semana foi encerrada no dia 17 com o espetáculo de Villa-Lobos, que causou um certo alvoroço porque a platéia achou que fosse provocação “futurista” o compositor e maestro apresentar-se de casaca e chinelos... Mas o motivo dessa estranha combinação era muito simples: Villa-Lobos estava sofrendo com um calo e não tinha condições de usar sapatos...
Cartaz de Divulgação da Semana


Saldo positivo

            Pode-se dizer que, apesar das críticas e obstáculos, a Semana de Arte Moderna de 1922 conseguiu atingir seu objetivo: divulgar que existia uma nova geração de artistas, escritores e intelectuais lutando pela renovação da arte brasileira e pela atualização da nossa cultura.
            Mas a Semana de 22 representa apenas um dos momentos da história do Modernismo, que, na verdade, já se iniciara antes e prosseguiria depois em várias direções, consolidando-se como o movimento cultural mais fecundo de nossa história. É um movimento tão rico que não poderia te, como realmente não teve, um “programa” rígido de idéias, uma “cartilha” a ser fielmente seguida pelos participantes.

Desejo de atualização

            As figuras que se destacam no anos polêmicos que antecederam a realização da Semana de 22, como Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade, divergiam profundamente quanto às características da renovação pretendida, conforme provam suas obras e a evolução posterior de cada um. O mesmo ocorreu em outras artes, como pintura, escultura e música. O que animou os jovens a unir-se em certo momento foi a consciência da necessidade de lutar contra obstáculos comuns: o espírito conservador e passadista, o obscurantismo e o provincianismo cultural na época.
            O desejo de atualizar a nossa arte, de coloca-la em dia com o que se estava fazendo na Europa, sobretudo na França, foi o que congregou os jovens modernistas e deu ao movimento matizes internacionais, recebendo, por parte dos mais conservadores, a pecha de "moda" importada.  Pela primeira vez em nossa história cultural, houve uma sintonia imediata com os centros de vanguarda e isso incomodou dos "donos" da arte brasileira.


Influência estrangeira

            A influência estrangeira no movimento é visível e não há por que nega-la, mas se distingue das outras influências que ocorreram no Brasil, principalmente por ter provocado um processo de atualização que despertou o interesse pela pesquisa de uma "linguagem artística brasileira" adequada aos tempos modernos, tanto na literatura como nas outras artes. Esse esforço de renovação foi simultâneo à busca de nossas raízes culturais, gerando, anos depois, uma preocupação nacionalista que se firmou como um dos objetivos da nova geração, chegando mesmo a ultrapassar os limites da arte para desdobrar-se na ação política.

"Paulicéia desvairada"

             O desejo eclodiu inicialmente em São Paulo, porque ali a industrialização avançava a passos largos. Tanto econômica quanto tecnicamente, São Paulo estava mais sintonizada com o resto do mundo do que as outras cidades do país - mais receptiva, portanto, ao entusiasmo pela inovação, ao gosto pelo progresso, ao êxtase pela vida vibrante dos grandes aglomerados urbanos, características que marcaram o Modernismo em várias partes do mundo e que encontraram na "Paulicéia desvairada" seu reduto mais propício. O próprio Oswald de Andrade assim resumiu essa questão do início do movimento: "Se procurarmos a explicação do porquê o fenômeno modernista se processou em São Paulo e não em qualquer outra cidade do Brasil, veremos que ele foi uma conseqüência da nossa mentalidade industrial. São Paulo era de há muito batido por todos os ventos da cultura. Não só a economia promovia os   recursos, mas a indústria, com a sua ansiedade do novo, a sua estimulação do progresso, fazia com que a competição invadisse todos os campos de atividade."

Uma atitude de contestação

            A Semana de Arte Moderna de 1922 foi, portanto, uma tomada de posição coletiva da nova geração contra o culto do passado, os preconceitos artísticos e a submissão a normas impostas pela tradição acadêmica.
            Mais que uma proposta teórica, esse movimento foi uma atitude de contestação, uma declaração franca e ruidosa dos direitos dos artistas brasileiros, uma forma de protestar contra a retórica parnasiana esterilizante (que, de resto, já estava desacreditada), contra a obsessão pelo purismo lingüístico que tinha como padrão as normas de Portugal.  Foi  uma reação agressiva contra o marasmo sufocante das convenções que imperavam nas diversas artes - pintura, escultura, música, literatura - e que acabou provocando uma união inédita entre os artistas, encorajando cada um deles a ousar mais, a pensar de modo independente e criativo, a libertar-se, enfim, da camisa-de-força que os preconceitos de um tradicionalismo pomposo e estéril impunham á vida cultural brasileira.
            Um dos aspectos modernistas do texto é a distribuição espacial dos versos, que não estão disposto conforme os esquemas tradicionais. Não há preocupação com as rimas (que são ocasionais), mas sim com o ritmo, bem evidente na seqüência "E o samba estronda / rebenta / retumba / ribomba". Nesses versos, a sugestão do ritmo do samba é reforçada pelo uso da aliteração (efeito sonoro provocado pela repetição de fonemas semelhantes numa palavra, num verso ou numa frase), presente também nos últimos versos.

Samba, de Di Cavalcanti


Samba

Poente - fogueira de São João.
E sob a cinza noturna o sol é um tição quase apagado quase.
                        Mas a noite negra
espia de longe por uma nesga
de nuvens e galhos. E vem depressa e chega
correndo. Chega. E ergue a lua redonda
e branca como um pandeiro.
                        E o samba estronda
rebenta
            retumba
                        ribomba.
E bamboleando em ronda
dançam brandos tontos e bambos
os pirilampos.
Guilherme de Almeida

            Na época, estava na moda ainda o poema parnasiano; mas a liberdade formal, a linguagem simples e o tema de inspiração popular afastam esse poema de Guilherme de Almeida da tradição parnasiana, que fazia questão dos rígidos esquemas de rimas e estrofes e da linguagem rebuscada, cheia de palavras raras.

Relicário

No baile da Corte
Foi o Conde d'Eu que disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É come bebê pita e caí
Oswald de Andrade

            O poema-piada, como esse de Oswald, foi muito comum nos primeiros tempos do Modernismo. Era um modo de provocar os tradicionalistas, debochando da "seriedade" da poesia. Observe também a liberdade formal do texto - ausência de pontuação e versos de diferentes medidas.

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispinéia, e suores noturnos.
vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

– Diga trinta e três. Mandou chamar o médico:
– Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
– Respire.
(...)
– O senhor tem uma escavação no pulmão
                [ esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o
                                                  [ pneumotórax?
                   Não. A única coisa a fazer é tocar um
                                                [ tango argentino.
Manuel Bandeira

            Esse é um dos poemas mais famosos do Modernismo. Por trás de uma aparente brincadeira poética, revela-se o sofrimento pessoal de Manuel Bandeira – a tuberculose que o castigou praticamente durante a vida toda. Pneumotórax é o nome de um tratamento da tuberculose pulmonar por introdução de nitrogênio ou ar na cavidade pleural.
            Os três primeiros versos são admiráveis como síntese de um drama existencial. E o diálogo com o médico termina com um verso que tornou muito popular como forma de expressão do irremediável, ao mesmo tempo amarga, irônica, bem humorada: "A única coisa a fazer é tocar um tango argentino".
            Nesse poema, temos as conquistas principais do Modernismo: linguagem coloquial, liberdade de construção e densidade poética.

Movimentos e tendências do Modernismo após a Semana

            Terminada a Semana, os modernistas preocuparam-se com:
§ a divulgação de suas idéias por meio de revistas;
§ o aprofundamento de suas críticas, organizadas por meio de discussões e propostos de movimentos culturais.

Principais revistas:


  • Klaxon       São Paulo             1922,1923
  • Estética     Rio de Janeiro               1924
  • Terra roxa e outras terras   São Paulo    1926
  • A Revista    Belo Horizonte          1925
  • Verde        Cataguases (MG)      1928
  • Maracujá    Fortaleza                 1929
  • Festa         Rio de Janeiro          1927

A revista Klaxon representou a primeira tentativa de organizar as idéias expressas pela Semana de Arte Moderna. Procurou contrapor duas correntes: o Futurismo (ligado à experimentação e à velocidade na linguagem) e o Positivismo (corrente mais próxima ao Surrealismo e ao Expressionismo, na busca do inconsciente).
          A revista Estética, em seus três números de existência, trouxe farto material teórico, com a colaboração de Graça Aranha, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e outros. A revista propôs a diferenciação entre "arte interessada"  e "arte autônoma" , pois, segundo Mário de Andrade, "a obra de arte é antes de mais nada uma organização fechada; em toda criação artística deve haver a intenção da obra de arte. Essa intenção é que torna uma entidade valendo por si mesma, desrelacionada."
          a revista Verde, a exemplo da Klaxon, Festa, A Revista e outras, juntou-se ao eco da revolução estética ensejada pelos modernistas, exorcizando a literatura tradicional e impondo-se como periódico de importância literária, conquistando a adesão de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Menotti del Picchia, Pedro Nava, Aníbal Machado e outros.

A Anta e o Tamanduá: a luta ideológica

      Simultaneamente à publicação de obras e à fundação de revistas literárias, são lançados vários manifestos e movimentos, os quais, além de divulgar as propostas modernistas, permitem a troca de experiências entre seus participantes e até mesmo explicam ou justificam as obras dadas a público, fomentando o debate de idéias.

     Desses movimentos (ou grupos), destacam-se quatro, que representam na verdade duas tendências estético-ideológicas: de uma lado o movimento Pau-Brasil e Antropofagia, cujo símbolo era um tamanduá, liderados por Oswald de Andrade; e, de outro, o Verde-Amarelismo e a Escola da Anta, cuja símbolo era a anta, liderados por Plínio Salgado.

Movimento Pau-Brasil

            Liderado por Oswald de Andrade, cujo manifesto foi publicado em 1924 no jornal Carreio da Manhã, propunha a redescoberta do Brasil por intermédio de uma arte voltada para as características do país. Apregoava liberdade, o verso livre, os neologismos. Seu manifesto sugeria "ver com olhos livres".
            No manifesto e na poesia Pau-Brasil, Oswald propôs, por outro lado, o primitivismo psicológico, a valorização de estados brutos da alma coletiva; por outro, deu ênfase à simplificação e à depuração formais que captam a originalidade nativa.
            Foram propostas do movimento:
·         paródia; caçoada
·         redescobrir o Brasil pós-cabralino
·         busca do primitivismo
·         crítica ao nacionalismo postiço


Verde-Amarelismo

            Corrente nacionalista radical, reage contra o movimento Pau-Brasil, propondo que se abandonem as idéias européias, na busca da verdadeira nacionalidade brasileira. Identificada com o Integralismo, esta corrente propôs uma visão ufanista da realidade brasileira, valorizando tradições indígenas, folclóricas, na tentativa de criar um sentimento nacionalista forte, nos moldes do nazifascismo europeu.
            Participaram desse movimento: Menotti Del Picchia, Plínio Salgado, Cassiano Ricardo, Raul Bopp e outros.
            O Verde-Amarelismo (1924) subdividiu-se em vários grupos: Movimento da Anta (1927), Movimento da Bandeira (1936) e outros.

Movimento Antropofágico

Teve suas idéias expressas na Revista de Antropofagia. Surgiu como reação ao movimento verde-amarelista e foi liderada por Oswald de Andrade.m seu Manifesto Antropofágico, propunha que "só a antropofagia nos une", no sentido de que as culturas estrangeiras fossem devoradas e recriadas segundo nossas tradições e costumes. "Tupi or not tupi, that is the question" seria o grande dilema da realidade brasileira.
            Considera-se como origem do movimento antropofágico a tela de Tarsila do Amaral, de janeiro de 1928, por ocasião do aniversário de seu marido Oswald de Andrade. A tela recebeu o nome Abaporu.
            Tarsila do Amaral, num artigo publicado no Diário de S. Paulo de 28 de março de 1943, refere-se á sua tela assim:
            Aquela figura monstruosa, de pés enormes plantado no chão brasileiro ao lado de um cacto, sugeriu a Oswald de Andrade a idéia de terra, de homem nativo, selvagem, antropofágico...


Modernismo Brasileiro – Semana de Arte Moderna de 1922


Contexto Histórico

            Estatísticas mostram que, em 1920, cerca de 70% da população economicamente ativa dedicava-se à agricultura. Entretanto, o processo de urbanização crescia implacavelmente. O Estado de São Paulo liderava o assentamento das correntes migratórias, que no campo, onde o governo dava passagens e alojamento para estrangeiros que se dispusessem a trabalhar sobretudo na agricultura cafeeira, que nas cidades, onde a mão-de-obra especializada na indústria e no artesanato encontrava acolhida. A cidade de São Paulo era sede dos maiores bancos, concentrava a maior parte da máquina burocrática , além de ser um núcleo de produtos importados, que chegavam pelo porto de Santos. Os imigrantes ocupavam as duas pontas do processo industrial, como empresários e como operários.
            As oligarquias, centradas sobretudo nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, defendiam os interesses da elite cafeeira. Os mineiros eram maioria na Câmara dos Deputados, influenciando e decidindo a distribuição de cargos federais e a aprovação de projetos. Os gaúchos possuíam a maior força militar do país e ressentiam-se da inflação que abalava o mercado do seu principal produto: o charque (carne seca), consumido em especial no Nordeste e no Rio de Janeiro.
            No Nordeste, os coronéis, com exércitos contratados, criaram verdadeiros feudos, em que o poder imposto pela força bruta imperava esmagando quem discordasse de seus desígnios.
            A política oligárquica de valorização da moeda para conter a queda de preço do café, dentre outros motivos, contribui para  a carestia – o aumento de preços sem que o devido repasse fosse feito para os salários. O país contraiu empréstimos no Exterior que foram se avolumando a ponto de, em 1928, terem chegado a cerca de 45% do total da dívida da América Latina.
            A influência da classe média urbana na política nacional ficou mais intensa após a Primeira Guerra Mundial, e um aspiração liberal começou a difundir-se contra as oligarquias, pleiteando a criação de uma justiça eleitoral que garantisse a honestidade nas eleições, já que todo tipo de fraudes eleitorais eram praticadas.
            As instabilidades decorrentes da guerra, somadas aos problemas internos brasileiros e à Revolução Russa de 1917, motivaram uma grande insatisfação entre os trabalhadores, cada vez mais organizados em sindicatos, gerando um ciclo de greves entre 1917 e 1920. Em março de 1922, foi fundado o Partido Comunista do Brasil (PCB), cujos membros eram predominantemente da classe operária.
            Paralelamente, crescia a insatisfação militar: oficiais de nível médio, em especial tenentes, mostravam-se contrários às oligarquias e ao liberalismo e propunham centralização do poder. Vários estados do país apoiaram o movimento. No Rio de Janeiro, eclodiu a Revolta do Forte de Copacabana, em 1922; em São Paulo, ocorreu a Revolta de 1924, cujo objetivo maior era destituir o governo de Artur Bernardes.
            Meses depois, no Rio Grande do Sul, liderados pelo capitão Luís Carlos Prestes, os gaúchos empreendem vários combates e deslocaram-se em direção a São Paulo para se juntarem aos tenentes paulistas. Em 1925, os revoltosos formaram a chamada Coluna Prestes a fim de instigar todo o país contra as oligarquias. Mais de mil homens percorreram a pé 24 mil km, dando esperança de reformas sociais e políticas.
Em meio a esse quadro de tensões, a moda, os perfumes, o champanha, os hábitos extravagantes da belle époque eram tardiamente cultivados pela burguesia brasileira do pós-guerra, que se mantinha sobretudo à custa da industrialização crescente, dos benefícios governamentais à cultura cafeeira e/ou dos ganhos irreais nas bolsas de valores.
            Notadamente no Rio de Janeiro e em São Paulo, a idéia de que tudo o que era francês era chique e refinado dominava os sonhos de consumo e de cultura da burguesia — o domínio da língua francesa permitia a essa classe social o acesso aos grandes nomes do Parnasianismo francês, lidos em recitais, em bares e festas; expressões e citações eram correntes, e denotavam refinamento.
            Foi nesse ambiente de euforia que se desenvolveu, em São Paulo, a Semana de Arte Moderna de 1922 — o evento considerado marco do Modernismo brasileiro.


Fatos precursores da Semana de Arte Moderna de 1922

            Muitos fatores concorreram para a realização da Semana de Arte Moderna de 1922. Dentre os inúmeros acontecimentos, destacam-se:

     1911 – Oswald de Andrade, cidadão da alta burguesia paulista, funda a revista O Pirralho,
cujo objetivo essencial era questionar a arte brasileira. Irreverentes composições como as de Juó Bananére – pseudônimo de Alexandre Marcondes Salgado - , satirizaram textos consagrados da literatura brasileira.

     1912 – Regressando da Europa, Oswald de Andrade foi o primeiro artista a importar o Futurismo. Em Paris, conheceu o manifesto de Marinetti, que pregava o apego à civilização técnica e o combate ao academicismo.
     1913 – O pintor expressionista Lasar Segall (artista russo radicado no Brasil) protagoniza a primeira exposição considerada modernista no Brasil, provocando a mentalidade conservadora da burguesia paulista com quadros que retratavam imagens distorcidas.
     1917 – Nesse ano, Oswald de Andrade conhece Mário de Andrade e ambos tornam-se amigos. São publicadas várias obras que apresentavam inovações na linguagem e na temática, dentre elas: Juca Mulato, de Menotti del Picchia; Cinza da Horas, de Manuel Bandeira; Nós, de Guilherme de Almeida; Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, de Mário de Andrade obra que tem como tema a Primeira Guerra Mundial.

            Anita Malfatti retorna ao Brasil, após quatro anos de estudos na Alemanha e nos Etados Unidos, e faz uma exposição de suas pinturas de influência expressionistas e cubistas no salão de chá da loja Mappin, em São Paulo. No primeiro dia, a artista obteve relativo sucesso, conseguindo, inclusive, reservas de quadros, canceladas nos segundo dia, quando Monteiro Lobato, então crítico de arte do jornal O Estado de S. Paulo, publica o artigo “Paranóia ou Mistificação”, no qual denigre o trabalho de Anita. Oswald de Andrade defende Anita e Mário de Andrade faz um poema ainda de formas parnasianas para homenageá-la. Leia um trecho do artigo de Lobato:

                       Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotando para a concretização das emoções estéticas os processos clássicos dos grandes mestres. [...] A outra espécie é formada dos que interpretam à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes brilham um instante, as mais das vezes com luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas doe esquecimento. Embora eles se dêem como novos, precursores duma arte a vir, nada é mais velha do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com paranóia e com a mistificação. [...]


     1919Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Menotti del Picchia e Hélio Seelinger conhecem Víctor Brecheret — o escultor adere ao grupo dos que articulariam a Semana de Arte Moderna. No mesmo ano, Brecheret vai a Paris, onde expõe no Salon d’Automne. Monteiro Lobato aprecia seu trabalho.
     1920 – A imprensa começa a publicar artigos que atacavam o academicismo e o passadismo, especialmente graças às participações ativas de Oswald, Menotti del Picchia, Cândido Mota Filho, Agenor Barata e Mário de Andrade.
     1921 – Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Armando Pamplona vão ao Rio de Janeiro buscar apoio para o movimento modernista. Conseguem as adesões de Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Álvaro Moreira, Renato de Almeida, Villa-Lobos e de Sérgio Buarque de Holanda.
            Nesse mesmo ano, Mário de Andrade publicou sete artigos, sob o título “Mestres do Passado”, no Jornal do Comércio, nos quais atacava os escritores parnasianos Francisca Júlia, Raimundo Correa, Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e Vicente de Carvalho. Leia o fragmento final do último artigo:

      [...] Malditos para sempre os Mestres do Passado! Que a simples recordação de um de vós escravize os espíritos no amor incondicional pela Forma! Que um olhar passeando por acaso nos vossos livros se cegue à procura de um verso de ouro! Que uma flor tombada de uma mãos infantis sobre vosso túmulo rebente em silvas de tais espinhos que nelas se fira e sucumba a ascensão dessa infância! Que o Brasil seja infeliz porque vos criou! Que a Terra vá bater na Lua arrastada pelo peso dos vossos ossos! Que o Universo se desmantele porque vos comportou!
      E que não fique nada! nada! nada!

            Em 1921 Graça Aranha retorna da Europa e participa dos movimentos culturais paulistanos. Villa-Lobos é convidado a participar de um evento em São Paulo para a divulgação das idéias modernistas. O maestro gostou do projeto, mas alegou não ter dinheiro para viajar. Foi através do patrocínio de Paulo Prado — rico intelectual paulista, herdeiro de fazendas de café — que Villa-Lobos pôde contratar os melhores instrumentistas e vir para São Paulo.



quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Figuras de Linguagem



Figuras de linguagem

São recursos usados pelos escritores e poetas, para tornarem mais expressivas suas mensagens. Subdividem-se em figuras de plavras, figuras de construção, figuras de pensamento e figuras de som.

Figuras de palavras

Metáfora: consiste em empregar um termo com significado diferente do habitual, com base numa relação de semelhança entre o sentido próprio e o sentido figurado.
“(..) os olhos teus são cais noturnos cheios de adeus” (Vinícius de Moraes)
O vento lambia meus cabelos.

Comparação: mesma metáfora, porém usando a palavra 'como'.
“Ele ficou como um touro em arena.
Metonímia: consiste em dar o significado usando outro termo, mas sempre há semelhança entre eles. “Nelson, nas horas de folga, lia Camões.” (obra pelo autor)
“ Traduziu Dante com a maior facilidade”.“Já naquele dia o trono estava abalado.” (sinal pelo significado).

Catacrese: consiste em tomar um termo por empréstimo, na falta de outro um melhor. O termo em uso é logo adotado pelos falantes como se fosse natural. “O pneu do seu carro está careca.”/ “ A cabeça do alfinete./ pneuzinhos da cintura.
Antonomásia ou perífrase: consiste em substituir um nome por uma expressão facilmente identificável. ”O poeta dos escravos era parnasiano?”

Sinestesia: Consiste em aparecer numa expressão, sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido. A água que ouviste/ num soneto de Rilke (audição)os ínfimos rumores no capim/ o sabor do hortelã (essa alegria)(gosto)a boca fria da moça maruim (tato)na poça/ a hemorragia da manhã (visão)(..)(Ferreira Gullar)

Metonímia: consiste em empregar um termo no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de sentido. Observe os exemplos abaixo:

1 - Autor pela obra: Gosto de ler Machado de Assis. ( = Gosto de ler a obra literária de Machado de Assis.)
2 - Inventor pelo invento: Édson ilumina o mundo. ( = As lâmpadas iluminam o mundo.)
3 - Símbolo pelo objeto simbolizado: Não te afastes da cruz. ( = Não te afastes da religião.)
4 - Lugar pelo produto do lugar: Fumei um saboroso havana. ( = Fumei um saboroso charuto.)
5 - Efeito pela causa: Sócrates bebeu a morte. ( = Sócrates tomou veneno.)
6 - Causa pelo efeito: Moro no campo e como do meu trabalho. ( = Moro no campo e como o alimento que produzo.)
7 - Continente pelo conteúdo: Bebeu o cálice todo. ( = Bebeu todo o líquido que estava no cálice.)
8 - Instrumento pela pessoa que utiliza: Os microfones foram atrás dos jogadores. ( = Os repórteres foram atrás dos jogadores.)
9 - Parte pelo todo: Várias pernas passavam apressadamente. ( = Várias pessoas passavam apressadamente.)
10 - Gênero pela espécie: Os mortais pensam e sofrem nesse mundo. ( = Os homens pensam e sofrem nesse mundo.)
11 - Singular pelo plural: A mulher foi chamada para ir às ruas na luta por seus direitos. ( = As mulheres foram chamadas, não apenas uma mulher.)
12 - Marca pelo produto: Minha filha adora danone. ( = Minha filha adora o iogurte que é da marca danone.)
13 - Espécie pelo indivíduo: O homem foi à Lua. ( = Alguns astronautas foram à Lua.)
14 - Símbolo pela coisa simbolizada: A balança penderá para teu lado. ( = A justiça ficará do teu lado.)